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Saudações desde Washington DC. Notícia urgente sobre o SOUTHCOM
Prezad@ colega:
Eu sou uma antropóloga que tem trabalhado na denúncia do papel que os Estados Unidos teve no golpe de estado que Honduras viveu no ano passado e na denúncia das políticas militares que têm sido implementadas desde aquele acontecimento. Aqui estão alguns dos artigos que escrevi neste ano:
Escrevo esta carta para lhe comunicar sobre um novo e perigoso uso da Acadêmia na atualidade, especialmente com a Antropologia, com o objetivo de legitimar a ocupação militar norte-americana dos países latino-americanos. Falamos da nova associação entre o Comando Sul (o United States Southern Command -SOUTHCOM- é um braço do Pentágono e é responsável pelas bases norte americanas na região) e a Universidade Internacional de Florida (Florida International University, FIU).
Tal como aconteceu no século passado, a indústria militar norte americana continua procurando mecanismos para usar a academia e os conceitos antropológicos para encobrir ações bélicas que são ao serviço das corporações norte-americanas. Na América Latina de 1963 até 1965, se implementou o projeto Camelot o qual deixou um obscuro precedente sobre o uso das ciências sociais na legitimação de operações de contra insurgência (incluindo operações psicológicas). Agora, o Comando Sul e o Centro de Pesquisa Aplicada da FIU têm feito uma associação para trabalhar em estudos da "Cultura estratégica" dos países latino-americanos, cujos informes apresentamos a continuação: Argentina; Bolivia; Brazil; Chile; Colombia; Cuba; Ecuador; El Salvador; Guatemala; Haiti; Nicaragua; Peru; e Venezuela
Em sua página da internet definem a "Cultura estratégica" como "a combinação de experiências e fatores internos e externos - geográficos, históricos, culturais, econômicos, políticos e militares – que formam e influem na maneira de como um país entender sua relação com o resto do mundo e na maneira na qual um Estado se comportar na comunidade internacional". No entanto ao observar os documentos produzidos pelas instituições FIU-SOUTHCOM (anexados a esta carta) é evidente que uma definição mais certeira da "Cultura estratégica" seria "propaganda estratégica para a criação de uma política hegemônica favorável para os interesses militares e econômicos norte-americanos".
É importante compreender que o uso do término "cultura" joga um papel chave já que é central na disciplina antropológica. Com o uso deste conceito, a aliança FIU-SOUTHCOM pretende utilizar a legitimidade e integralidade da Antropologia e de outras ciências sociais para despolitizar e reafirmar a política de ocupação sobre as Américas.
FIU-SOUTHCOM manifestam que sua aliança tem por objetivo fazer uma "pesquisa da mais alta qualidade e gerar um conhecimento que possa ser utilizado na compreensão das dimensões políticas, estratégicas e socioculturais do comportamento de um Estado". No entanto, ao observar o histórico das pessoas que participaram na conferência que FIU-SOUTHCOM organizaram para canalizar o caso de Honduras, a "alta qualidade" é muito menos importante que a criação de uma "propaganda antidemocrática de alta qualidade" que possa ser utilizada para apoiar o governo golpista que tem sido implementado e aumentar a presença militar e econômica dos Estados Unidos.
No 7 de outubro, teve o seminário chamado "A cultura estratégica de Honduras" que contou com a participação de:
Fonte: www.soaw.org
Neste seminário o Doutor Pastor Fasquelle apresentou-se como "membro da resistência e como um homem leal ao presidente Zelaya", ele participa neste evento porque conhecia as pessoas que iam a estar no mesmo "representado" ao Honduras. Preocupado pelas coisas que observou na conferência e porque sua presença estava sendo utilizada para dar um verniz acadêmico à política norte-americana de militarização sobre América Latina, especialmente na Honduras, o Doutor Pastor Fasquelle compartilhou a informação do evento.
O conceito de “Cultura” vem sendo utilizado para justificar as ações violentas militares dos Estados Unidos em todo o hemisfério, justificar o treinamento e financiamento das Forças Armadas latino-americanas em técnicas de tortura, assassinato seletivo de líderes opositores e para realizar golpes de estado.
Se nossa disciplina vem sendo apossada para legitimar a violência militar, todos nós estamos obrigados a denunciar estas ações nos círculos acadêmicos assim como nos movimentos sócias. Somente através destas ações poderemos demandar a ética da antropologia e das ciências sociais em geral.
É pela gravidade dos fatos apresentados que convidamos a você e seus estudantes a analisar as biografias das pessoas que participam nas oficinas que FIU-SOUTHCOM estão organizando para "discutir" assuntos relacionados a seus países. Adicionalmente, lhe convidamos a denunciar que a pseudo ciência social do complexo militar norte-americano esteja ameaçando a democracia do país onde você reside.
Outrossim, escrevo esperando que possamos nos unir internacionalmente para denunciarmos estas práticas, assim como fizeram vários antropólogos contra os chamados Sistemas de Terreno Humano, utilizados nas guerras contra Iraque e Afeganistão. Juntos, seremos muito mais efetivos na luta contra a militarização que ameaça nossas comunidades.
Aqui sugerimos um modelo de carta que pode ser enviado para as instituições responsáveis por aquilo que denunciamos hoje.
Em solidaridade,
Adrienne Pine
Assistant Professor of Anthropology
American University
Washington, DC
http://quotha.net
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